"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos.

Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."



- Martha Medeiros -

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terça-feira, 31 de maio de 2011

-NO CHUVEIRO-


Meu namorado está entrando no chuveiro enquanto eu acabo de sair dele e estou me enxugando. A campainha da porta toca. Começa uma discussão para ver quem iria atender a porta... acabei perdendo... desisti se enrolei na toalha e desci as escadas. Quando abri a porta, era o vizinho Bob em pé na soleira. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Bob diz: "Eu lhe dou 800 dólares se você deixar cair esta toalha."

Depois de pensar por alguns segundos, deixei a toalha cair e fiquei nua pra ele. Bob então sorri satisfeito, me entrega os 800 dólares prometidos e vai embora. Confusa, mas excitada com minha sorte, já que sou sempre tão azarada, me enrolo de novo na toalha e volto para o quarto. Quando entro no quarto, meu namorado grita do chuveiro "Quem era?" "Era o Bob, o vizinho da casa ao lado." Respondi sem dar muitas explicações. "Ótimo! Ele lhe deu os 800 dólares que ele estava me devendo?"
Moral da história: O nome tá certo! Eu sou Jade - A AZARADA mesmo!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

- TEU BEIJO ! -



Toco a sua boca com um dedo, toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se, pela primeira vez, a sua boca entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que minha mão escolheu e desenha no seu rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade, eleita por mim para desenhá-la com minha mão em seu rosto, e que, por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que minha mão desenha em você. Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de ciclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem, com um perfume antigo e um grande silêncio. Então as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se estivéssemos com a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Julio Cortázar

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

- COISAS MORNAS -


"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos, um filme mais ou menos ,um livro mais ou menos.
Tudo perda de tempo.
Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoraçao ou seu desprezo.
O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."

(trecho do livro O Divã)

- Martha Medeiros -


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